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E quando os próprios porteiros chegam à universidade?

Por Chico de Paula

Por Chico de Paula

 

Se Paulo Guedes, ministro da Economia do governo Bolsonaro, acha absurdo os filhos de porteiros terem chegado à universidade, imagine o que ele diria sobre os próprios porteiros que chegaram ao ensino superior? É o meu caso, que em 2004 trabalhava na portaria de um prédio de condomínio, no Rio de Janeiro, quando passei para uma universidade pública federal, a primeira de uma série de aprovações que viriam.

Eu havia saído no início de 1999 de Lago da Pedra, interior do Maranhão, aos 19 anos de idade, rumo à cidade maravilhosa, da mesma forma que muitos conterrâneos meus: com uma mão na frente e outra atrás, mas carregado de sonhos. Mas não foi nada fácil! As cidades grandes do Sudeste do País são muito hostis aos nordestinos como eu, ora por desconhecimento, ora por preconceito que muitos nutrem contra nós.

No Rio de Janeiro, longe da família pobre que apostava e esperava muito de mim, laborei em várias frentes, de faxineiro à vendedor, mas nunca sem perder aquele grande sonho que me acompanhava desde a infância: frequentar uma universidade e “ser alguém na vida”. Até que em 2002 consegui um emprego de zelador de condomínio, um misto de porteiro e faxineiro, o que me possibilitava, com as horas que passava na portaria, voltar a estudar.

Da lixeira do prédio resgatei muitos livros jogados fora pelos moradores, moradores estes que logo perceberam meu interesse pelos estudos e passaram a me estimular doando livros e mais livros. Um insucesso aqui e um outro ali aconteceram, mas nada que abalasse meu ânimo, até que fui aprovado, primeiro para cursar Biblioteconomia na Universidade Federal do Estado Rio de Janeiro (UNIRIO) e depois Direito na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Depois disso veio a aprovação em concurso público para a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ao mestrado em Políticas Públicas que, concluído, me levou ao doutorado em Comunicação, sempre em universidade públicas. Nestas universidades tive o prazer de conhecer outros e outras que, assim como eu, vinham de comunidades populares, das periferias dos grandes centros e do interior do País.

Não pretendo discorrer aqui sobre minha biografia ou minha vida acadêmica, mas mostrar que houve sim uma certa democratização no que se refere ao acesso ao ensino superior no Brasil a partir da segunda metade da primeira década dos anos 2000, o que garantiu à muitos filhos e filhas não só de porteiros, mas filhos e filhas de faxineiros(as), lavradores, garis, cozinheiros, garçons etc. chegar à universidade pública ou privada, esta última através de bolsas de estudo.

Só para se ter uma ideia, o número de matrículas em cursos de graduação presenciais cresceu de 2.694.245 em 2000 para 5.449.120 em 2010 em todo o país. Um estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) mostrou que os maiores incrementos percentuais das matrículas na educação superior ocorreram nas regiões que detinham as menores taxas de frequência neste nível de ensino, ou seja, o Norte, o Nordeste e o Centro-Oeste, e apresentavam baixo índice de conclusão do ensino médio.

Obviamente que este fato, como tantos outros que se tornaram possíveis à muitos jovens periféricos destes País, incomodou muito a elite terceiro-mundista do Brasil, o que acabou por se refletir em vários episódios de descriminação e preconceito, como o da professora que fotografou um homem de bermuda em um aeroporto e postou a foto (sem o conhecimento e autorização do homem, que se soube depois se tratar de um advogado retornando de férias) nas redes sociais com a seguinte legenda: “rodoviária ou aeroporto?”

Paulo Guedes faz parte desta elite que não tem nenhum pudor em escancarar o seu elitismo e o seu desprezo pelos mais pobres. Ano passado, por exemplo, o ministro, ao comentar a alta no preço do dólar, disse que a elevação abrupta no preço da moeda americana era “bom para todo mundo”, pois, com o preço mais baixo, “todo mundo” estava indo para a Disney, nos Estados Unidos, inclusive “empregada doméstica”.

Na cabeça de Guedes, bem como na cabeça da pseudoelite nacional, aquela classe média que se sente rica, é um verdadeiro pecado ter de dividir estes pequenos luxos com alguém de menor poder aquisitivo. Ver os seus filhos dividirem os bancos universitários com os filhos dos porteiros (ou mesmo com os próprios porteiros, como era o meu caso) se tornou uma grande afronta, pois, na mentalidade destas pessoas, lugar de preto, pobre, favelado, periférico, nordestino… é na cozinha, na faxina, na portaria…

A crítica necessária que o ministro poderia ter feito (embora não dê para esperar muito de pessoas como ele) é que o Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (FIES), programa do Ministério da Educação (MEC) criado em 1999, destinado a financiar a graduação na educação superior de estudantes matriculados em instituições não gratuitas, acabou por gerar um universo de mais de 3 milhões de inadimplentes, ou seja, jovens que mal se formaram e já acumulam dívidas crescentes.

O FIES é um verdadeiro paradoxo, pois se de uma lado permitiu o acesso sem precedentes de jovens ao ensino superior no Brasil, acabou por transferir à iniciativa privada os investimentos que deveriam ter sido aplicados diretamente nas universidades públicas. A consequência disto é que, assim como ocorre nos Estados Unidos, onde o modelo privado domina o ensino superior, tenhamos um contingente crescente de jovens endividados, muitos dos quais desempregados e sem perspectiva, sobretudo depois do advento da pandemia.

Nestes sentido, defendo o fortalecimento da universidade pública, gratuita e autorreferenciada, uma universidade que garanta não só o acesso aos jovens periféricos deste País aos seus quadros, mas que assegure a permanência destas pessoas com garantia de bolsas, alojamentos, bandejões, transporte e bibliotecas bem estruturadas(os). Que mais filhos e filhas de porteiros, faxineiras, serventes, lavradores etc. possam chegar à universidade e desfrutar dos benefícios que o conhecimento pode proporcionar.

 

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