fbpx
BrasilColunistasMaranhão

Marcelo Queiroga e banalização do mal

Por Chico de Paula

Por Chico de Paula

 

Questionado pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI da Covid durante sessão desta quarta-feira (6), sobre haver ou não uma concordância com a indicação de cloroquina aos pacientes diagnosticados com Covid-19, que tem uso incentivado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), ainda que o medicamento não tenha eficácia comprovada para o tratamento da doença, o ministro da Saúde Marcelo Queiroga respondeu: “não tenho que fazer juízo de valor a respeito das opiniões do presidente da República”.

Certamente muitos aliados de Bolsonaro não fazem juízo de valor sobre os absurdos defendidos por ele porque comungam de seus pensamentos. Até aí não me surpreende que estas pessoas abram mão de sua capacidade crítica em nome de convicções estreitas, rasas e infundadas defendidas pelo chefe. O que me causa espécie é imaginar que em algum momento um dos auxiliares do mandatário da República possa discordar dele, mas continuar a executar suas ordens sob a justificativa de que “uns mandam, outros obedecem”.

Queiroga não só pode, como deve fazer juízo de valor sobre os atos do presidente da República, sobretudo se estes atos puderem implicar na morte de centenas de milhares de pessoas. Queiroga é ministro da Saúde, o que por si só já exige dele um senso de responsabilidade enorme. Mas Queiroga é antes um médico que reivindica a ciência como uma importante fonte para se resolver diversos problemas que afligem a sociedade. Então abrir mão da possibilidade de usar sua capacidade crítica pode ser para ele um caminho sem volta.

Como lembrou um membro da CPI, Queiroga está ministro, mas ele é um médico. Isso significa que se esquivar de se posicionar sobre determinados temas pelo simples fato de estar ocupando um cargo no Executivo é uma decisão perigosa, o que pode lhe render problemas que irão reverberar ao longo de sua existência. Como Queiroga não parece ser um bolsonarista orgânico, sua esquiva em responder os questionamentos dos senadores parece se explicar pela necessidade de se manter no cargo, mesmo que isso signifique contrariar suas convicções.

Neste sentido, não é demais lembrar que Queiroga é presidente licenciado da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), que já se posicionou contra o uso da Cloroquina e da Hidroxicloroquina associada, ou não, a Azitromicina, enquanto não houver evidências científicas definitivas acerca do seu emprego. Ou seja, a posição do agora ministro é pública, mas ele procura esconde-la, provavelmente para agradar o presidente da República e, consequentemente, se manter cargo num governo que tem concorrido de forma direta para a desgraça que temos vivido.

Hannah Arendt, filósofa política alemã de origem judaica, tinha razão: o mal pode estar na mais medíocre criatura, porque ele, o mal, pode se revestir da atividade mais banal e cotidiana, como assinar documentos que podem levar pessoas a morte. Esta constatação é fundamental para percebermos como é imprescindível não se abrir mão da nossa capacidade crítica sob o risco de, sob a justificativa de estar se obedecendo a regras e hierarquias, se cometer as maiores atrocidades. Uma caneta não é só uma caneta a depender da mão que a manuseia.

Pior do que os bolsonaristas orgânicos, que morreriam por esta causa por mais absurda que ela seja, são os “técnicos” que, despidos em tese de estímulos ideológicos, acabam por executar as perigosas políticas do governo Bolsonaro, sobretudo aquelas ligadas ao campo da saúde pública num momento agudo da pandemia. Se houver o mínimo de ombridade por parte destas pessoas (embora eu não espere nada neste sentido), é preciso pedir para sair, assim como fez Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, que também ocuparam a pasta da Saúde.

Se Marcelo Queiroga, bem como qualquer outro agente público, insistir em auxiliar esse governo, responsável direto pela morte de mais de 400 mil brasileiros, estará se enquadrando naquilo Arendt chamou de banalidade do mal, que é o mal pelo mal, o mal decorrente da tecnoburocracia, “a mediocridade do não pensar, e não exatamente o desejo ou a premeditação do mal, personificado e alinhado ao sujeito demente ou demoníaco”, aquele que “se instala por encontrar o espaço institucional criado pelo não pensar”.

Deixe Aqui Seu Comentário
Minuto SEBRAE - MA
Ler Mais

RELACIONADAS

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Por favor, considere apoiar-nos, desativando o seu bloqueador de anúncios