Colunistas

A chance da lava-toga

Por Edson Vidigal

Transparência total. Não só como princípio. Mas como regra absoluta a nortear todas as ações dos agentes do poder público.

O poder de cada um em todos os Poderes – Executivo, Legislativo, Judiciário e Ministério Público – é delegação da sociedade para legitimar as ações de autoridade cumprindo e fazendo cumprir a Constituição e as Leis do País.

A pessoa no exercício de qualquer função do poder público perde o respeito da sociedade quando perde a moral. Perde também, por conseguinte, a legitimidade indissociável à validade dos seus atos.

Por isso, há sempre em prontidão os que convocam a injúria, a difamação, como armas nunca certeiras, sem os resultados finais pretendidos, quando a verdade desponta, a tempo, abatendo os mísseis da crueldade.

Daí que não basta, em especial, no serviço público, fazer as coisas certas, mas fazê-las sempre com a certeza de que todos os olhos do mundo estão a enxergar tudo o que se passa, ainda que o fazer imponha absoluta concentração e total solidão.

Nas quase duas décadas em que estive Juiz com imenso poder de autoridade na República ate me ofendia com as insinuações e dossiês anônimos que eu lia ou me chegavam.

Conhecendo as pessoas como imaginava que as conhecia, tendo mais o que fazer no meu trabalho, não vendo indícios suficientes nem provas, lançava tudo na lixeira do tempo. Para não atulhar com lixo as gavetas da memória.

Hoje, depois que voltei ao outro lado dos cancelos, fronteiras sempre intransponíveis, o olhar de advogado no desfilar das coisas me inquieta como sementes de dúvidas.

Dúvidas hoje ainda me são poucas. Surpreendentes, mas poucas. Como no poema de Pessoa, não tenho, nunca tive, irmandade nenhuma com essas coisas.

Luz, mais luz! Peticionou Ghoethe. Mais vale acender uma vela que amaldiçoar a escuridão! Proclamou Confúcio. Transparência total, luz absoluta, também sobre os labirintos, e ainda são muitos, do Judiciário no Brasil.

E para ler e meditar com calma a matéria do Crusoé desta semana. Veja aqui:

https://crusoe.com.br/edicoes/34/a-chance-da-lava-toga

ntre a eleição e a posse há um governante, que mesmo em estado de reeleição, executa acordes finais.

A fadiga do primeiro mandato não parece inspirar acenos às esperanças que vistas hoje, de um certo ponto de vista, renegam o verde que o tempo por estas bandas sangrou.

As esperanças de muito antes de anteontem que pousaram nos corações de outrora agora se ensaiam em desertos de verdes como que em busca de uma nova cor, o branco das pombas, talvez, certamente um símbolo de paz.

A esperança é incansável, não desiste, é imortal. É a última que morre, até porque, dizem, quando o nojo chega ao mais insuportável ela é a primeira a dar o fora.

Assim como há cordeiros que não são cordeiros porque por dentro são lobos vorazes, advertem os evangelhos, há também as esperanças não são esperanças porque são as que no voo despencam o verde da ilusão e então picam com violência porque em verdade são marimbondos vorazes.

Entre o resultado da eleição e a data da posse há dois governantes. Há o que vai sair daqui a pouco – ou porque a maioria, uma vez esclarecida, preferiu dar logo um basta nos avanços da sua jornada ou porque não se candidatando a nada preferiu a quietude da hora de ir embora sozinho.

Há o que, eleito pela primeira vez, é rodeado de bajuladores, de oportunistas, de alpinistas e até de esperanças das verdes, também conhecidas como esperanças populares. Onde chegam. Ou por onde passam.

Esse tempo, que é só de espera da data da posse, inebria encantamento como um éter fortíssimo de um enorme frasco quebrado.

É preciso equilíbrio, quero dizer, muito juízo, para não achar que tudo que se refere ao poder é por demais passageiro.

O poder, seja o político, o econômico, ou aquele outro difuso conhecido como o da glória, podem viciar.

Felizmente, como tudo nesta vida feita de antes, durante e depois, o poder, qualquer que seja, tem prazo de validade e um dia acaba. Só os idiotas se iludem e confundem achando que o estado transitório do poder, qualquer que seja, é coisa de posse pessoal.

O poder político é institucional. Resulta da legitimação legal, mas perde densidade até não valer mais nada ao perder a autoridade moral. Os cargos e funções não honram, mas os que os ocupam e os exercem é que tem o dever moral de honrá-los.

O eleito pela primeira vez, que está só na espera da hora da posse, já governa. Governa expectativas. Seu governo prévio tem o acorde de uma canção. Das que não enxotam esperanças. Talvez como na “Canção da Expectativa” do poeta José Chagas.

Edson Vidigal, Advogado, foi Presidente do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho da Justiça Federal.

 

 

[dropcap]Cabelos e barba encarapinhados e aquele olhar discretamente esbugalhado de Imperador da Etiópia, o garçom espera que os mais apressados, afinal, escolham as mesas onde vão ficar.

Na escala em Frankfurt rumo a Moscou, vi a fúria de fome com que uns brasileiros encararam repetidas porções de linguicinhas e canecões de cervejas variadas.

Agora, na escala de volta ao Brasil, estamos aqui, Eurídice e eu, neste pequeno e acolhedor recanto pedindo sugestões de pratos e de vinho ao nosso cover de Leão de Judá.

Só nos restam agora menos de duas horas.

O Imperador da Etiópia, Hailé Selasié, conhecido como Leão de Judá, fez história também na Jamaica e até no Brasil.

Celebridade global à época viajou de Adis Abeba, a Capital do seu Império, a convite do Presidente Juscelino para a inauguração de Brasília.

No Palácio da Alvorada, em plenos festejos, o Imperador recebeu a má noticia de que fora deposto numa reviravolta militar. Sem o poder do Trono, não tinha dinheiro para voltar.

Juscelino pediu a Walter Moreira Sales, dono do Unibanco, 500 mil cruzeiros para financiar a viagem e o retorno do Imperador ao Trono. Em lá chegando, Selasiê fui bem sucedido.

Na Jamaica, Marcus Garvey, um ativista pelos direitos dos negros, em tom profético, recitou um dia – “olhem para a África, onde um rei negro vai ser coroado, anunciando que o dia da libertação estará próximo”.

Isso virou um dogma para descendentes dos escravos. Afinal, a abolição em 1833 não melhorou em quase nada a vida do povo negro.

A assunção ao Trono etíope de um Príncipe negro, em 1930, atiçou ainda mais as esperanças na Jamaica soando como uma confirmação da profecia de Garvey.

Haile Selassié era o “Ras Tafári” prometido e esperado. Nada a ver, portanto, com o cabelão trançado de Robert Nesta Marley, conhecido no mundo como Bob Marley.

Rastafáris entre os jamaicanos são os seguidores da crença que se mantém inabalável de que após a assunção de um rei negro a um trono na África a libertação verdadeira estaria próxima a partir do êxodo à origem de todos.

O avental do nosso gentil garçom tem bolsos para tudo do seu trabalho – telefone celular, maquininha para cartão de crédito, saca rolhas, cardápio, carta de vinhos, bloco para anotar os pedidos, sei lá que mais.

Transita sua magreza quase imperial em passos leves como se o quadrado do restaurante fosse sua privilegiada passarela.

Com o indicador aponto o mostrador do meu relógio como a lembrar-lhe que temos pressa. Ele faz a interlocução com o olhar e segue o seu script imperturbavelmente.

Agora é a nossa vez nas linguicinhas. Mas nada de canecões com cerveja. Ainda há tempo para um tempranillo de La Rioja, Espanha. A União Europeia faz muito também com essas coisas.

Edson Vidigal, advogado, foi Presidente do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho da Justiça Federal. Fez escala em Frankfurt, Alemanha, na viagem de volta de Moscou para o Brasil.

Deixe Aqui Seu Comentário
Tags
Ler Mais
Close
Close