A coragem de assumir a homossexualidade cacifa Eduardo Leite para 2022? 

Por Chico de Paula

Vou começar este artigo pelo começo, por mais redundante que esta afirmação possa parecer. E o começo desta história é a nobre e corajosa decisão do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, que assumiu sua homossexualidade na última semana num programa de grande audiência, como o do jornalista Pedro Bial, na TV Globo. 

A atitude é nobre e corajosa na medida em que vai de encontro ao histórico, especialmente na política, de discriminação e preconceito contra pessoas com orientações sexuais que não as heteronormativas, o que obrigou, por muito tempo, muitas pessoas a esconderem sua orientação sexual como uma forma de sobreviver, mais do que politicamente, eleitoralmente, em um pais marcado pela violência contra LGBTQIs. 

Uma pesquisa do ano passado, baseada nos dados do Sistema Único de Saúde (SUS), mostrou que a cada uma hora um LGBTQI é agredido no Brasil. Entre 2015 e 2017, data em que os dados foram analisados, 24.564 notificações de violências contra essa população foram registradas, o que resulta em uma média de mais de 22 notificações por dia, ou seja, quase uma notificação a cada hora. 

Na seara eleitoral, é fato que está cultura violenta contra os LGBTQIs afastou muitas pessoas com essa orientação da arena política, de tal modo que só mais recentemente se viu ascenderem ao parlamento brasileiro figuras assumidamente gays, como são os casos do então deputado federal Jean Wyllys (que ao renunciar ao mandato foi substituído por David Miranda, que é também gay assumido) e do senador Fabiano Contarato. 

Embora, como disse no início deste artigo, a atitude de Eduardo Leite seja nobre e corajosa, não posso deixar de dizer o quanto ela é oportunista e como ela aponta para uma direção ainda bastante indefinida no cenário político-eleitoral no Brasil, que é a viabilização de uma terceira via, ou seja, uma "via alternativa" à Lula e à Bolsonaro, que até aqui parecem dominar a disputa para 2022. 

Ao que parece, algo que poderia se apontar como uma terceira via é hoje quase que monopoliza pela figura de Ciro Gomes, o terceiro colocado nas eleições presidenciais de 2018 e que ainda conserva uma base de apoio significativa, de tal modo que este aparece sistematicamente como o terceiro colocado nas pesquisas eleitorais para ocupar o Planalto a partir de 2023. 

Num sentido diverso (mais nem tanto) me cabe aqui dizer porque considero Eduardo Leite um oportunista e aproveitador. Não é só porque ele foi, como bem destacou o jornalista Glen Greenwald, num excelente artigo publicado na CartaCapital, um dos maiores entusiastas e apoiadores do homofóbico Bolsonaro quando das eleições de 2018, mas porque não existe no histórico de Leite algo que o aponte como alguém progressista, premissa da qual depende o movimento LGBTQI para sobreviver. 

Leite conduz uma pauta neoliberal, como a Reforma da Previdência, já aprovada em seu estado, e as privatizações das estatais, que tem como bola da vez a Companhia Estadual de Transmissão de Energia Elétrica (Ceee-T), o que promete empurrar para as mãos do capital especulativo os bens e serviços de natureza pública, encarecendo o custo de vida e piorando a vida das pessoas mais pobres. 

Pra mim está muito claro que o gesto de Leite (nobre e corajoso, não custa repetir), ao assumir sua homossexualidade, não é por causa da importância desta pauta política, mas porque este deseja se cacifar para 2022. Observe que este foi um dos fatos mais repercutidos pela imprensa e pelas redes sociais na última semana, o que demonstra que um dos objetivos de Leite já foi alcançado: ter seu nome circulando massivamente para além do Rio Grande do Sul, estado que governa. 

Também não é por um acaso que tal anúncio foi feito num programa da TV Globo. Desde que o ex-juiz e ex-ministro da Justiça Sérgio Moro caiu em desgraça, as Organizações Globo procura emplacar um nome "alternativo" à Lula e à Bolsonaro, alguém que dê conta da sua agenda neoliberal sem maiores resistências. Se essa pessoa é Eduardo Leite, temos de esperar um pouco mais para saber.

___________________________________________________________________________________________________________________________________________

Chico de paula é Doutor em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre em Políticas Públicas e bacharel em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), advogado e jornalista. Natural de Lago da Pedra (MA), radicado no Rio de Janeiro, onde reside desde 1999.