A crise decorrente da pandemia não é uma crise, é um projeto

Por Chico de Paula

Darcy Ribeiro disse, certa feita, que “a crise da educação no Brasil não é uma crise, é projeto”. Pedindo licença ao ilustre intelectual, digo sem titubear: “A crise decorrente da pandemia de Covid-19 não é uma crise, é projeto genocida do bolsonarismo”. Para fazer tal afirmação, tomo como base diversas evidências, a maioria delas trazidas à luz pela CPI da Covid que chega ao final nos próximos dias.

Para os integrantes da CPI, Bolsonaro pode ser indiciado pela prática de pelo menos três crimes: 1) a prática de charlatanismo, 2) a prática de curandeirismo e 3) a divulgação de propaganda enganosa. Em março de 2020, a Secom, Secretaria de Comunicação da Presidência, criou a campanha, “o Brasil não pode parar”, proibida pela Justiça dias depois do seu lançamento.

Mas não foi só isso. Todo mundo viu e continua a ver o chefe máximo da nação desacreditar da doença que já matou quase 600 mil pessoas, a qualificando como “gripezinha”, ao mesmo tempo em que não só participava/participa de aglomerações (uma das principais formas de transmissão do vírus), mas as incentivava/incentiva, desestimulando o uso de máscaras e o isolamento social, entre outras coisas.

Bolsonaro se empenhou pessoalmente na desqualificação das evidências científicas que atestavam/atestam a ineficácia de medicamentos como a cloroquina, a hidroxicloroquina e a ivermectina. A propósito, são bombásticas as revelações trazidas nesta quinta-feira (16) pela GloboNwes, de que o plano de saúde Prevent Senior ocultou mortes de pacientes que participaram de um estudo realizado para testar a eficácia da hidroxicloroquina, associada à azitromicina, no tratamento contra a Covid-19.

Segundo a reportagem, bastante repercutida na sessão da CPI desta quinta-feira (16), nove pacientes morreram durante a pesquisa, mas os autores só mencionaram duas mortes. Um médico que trabalhava na Prevent e mantinha contato próximo e frequente com os diretores da operadora na época afirmou à GloboNews que o estudo foi manipulado para “demonstrar” a “eficácia” da cloroquina.

O resultado do “estudo”, que já estava pronto bem antes da sua conclusão, foi apoiado pelo presidente da República, Jair Bolsonaro, que o compartilhou na internet como sendo verdadeiro, mesmo sabendo que tudo que até ali mostrava o contrário. Além disso, esta “pesquisa”, agora desmascarada pela imprensa, é usada com frequência pelos defensores da cloroquina para justificar a prescrição do medicamento.

Em entrevista também à GloboNwes esta semana, o jurista e ex-ministro da Justiça Miguel Reale Jr. disse que o presidente Jair Bolsonaro atuou a favor da disseminação do coronavírus no país ao longo da pandemia e que isso não foi negligência, mas sim uma política pensada. “Não foi negligência. Foi uma política pensada. Uma ação toda ela dirigida à valorização da economia", afirmou Reale Jr.

São por estas e por outras que a CPI vai encaminhar ao Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia, na Holanda, cópia do seu relatório final, denunciando o presidente Jair Bolsonaro por crime contra a humanidade. A decisão foi acertada entre o relator, Renan Calheiros (MDB-AL), e o grupo majoritário da comissão, o chamado G7 na última semana.

“No estado do Amazonas teve implantação clara da imunidade de rebanho. Chegou a ter mais de 200 mortes em apenas um dia. A população clama por oxigênio, em vez de mandarem oxigênio, mandaram 120 mil comprimidos de cloroquina”, disse ao site Congresso em Foco a senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA). “Isso é crime contra a humanidade, isso é crime grave. O relatório deverá ser enviado ao Tribunal de Haia”, acrescentou.

Embora a denúncia se sustente em dois pontos, quais sejam 1) a crise com o desabastecimento de oxigênio em Manaus e 2) a falta de políticas de proteção para os povos indígenas durante a pandemia, está claro que o projeto encabeçado por Bolsonaro é de extermínio de todas as populações mais vulneráveis, como os trabalhadores e trabalhadoras que, na ausência de uma política pública que lhes garantisse o efetivo isolamento social, continuaram a circular, mesmo durante o pico do contágio, em transportes superlotados.

Desta forma está claro, como eu disse no início deste artigo, que a crise decorrente da pandemia de Covid-19 não é uma crise, mas sim um projeto genocida do bolsonarismo contra os excluídos do sistema produtivo do Brasil, um projeto de eliminação a conta gotas dos mais pobres, trabalhadores e trabalhadoras de chão de fábrica, pretos, pobres, favelados e periféricos deste país. É preciso que se diga isso em alto e bom som, pois um dia este genocida há de pagar por seus crimes e eu espero estar aqui pra ver.

Chico de Paula é Doutor em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre em Políticas Públicas e bacharel em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), advogado e jornalista. Natural de Lago da Pedra (MA), radicado no Rio de Janeiro, onde resido desde 1999.