A crise do capitalismo é estrutural e os pobres é que pagam por isso

Por Chico de Paula

O crescente empobrecimento da população, a capilarização do crime organizado (especialmente as milícias e o narcotráfico), a crise imigratória, a favelização acelerada dos grandes centros urbanos, o alto índice de desemprego, subemprego e desalento, bem como a alarmante insegurança alimentar são sintomas de uma crise sanitária, política, econômica e social que os historiadores dizem não ter precedentes.

E embora a pandemia do coronavírus seja um elemento importante nessa conjuntura, a crise pela qual o mundo passa, e que atinge especialmente os países da periferia do mundo, como o Brasil, não é conjuntural, mas sim estrutural. Isso significa dizer que não basta boas safras no campo, a valorização de uma moeda local (em geral desvalorizada frente ao dólar americano), a valorização ou desvalorização das commodities ou mesmo a eleição de algum sujeito apontado como sendo alguém progressista, para que esse quadro se reverta.

Como se viu nos últimos tempos, mesmo com todo o dilema imposto pela pandemia, o número de multimilionários aumentou substancialmente. Segundo o relatório Global Wealth Report 2021, elaborado anualmente pelo banco Credit Suisse, o mundo terminou 2020 somando 56,1 milhões de pessoas com riqueza superior a US$ 1 milhão, cerca de 10% mais do que as 50,9 milhões verificadas um ano antes.

Mesmo no Brasil, onde o número de milionários diminuiu de 2019 para 2020, o nível de concentração de renda continua alarmante: hoje 1% da população detém 49,6% da riqueza do país, contra 40,5% em 2010. Por aqui, a despeito da pandemia, grandes setores econômicos, como o predatório agronegócio, continuam a crescer, se aproveitando da demanda internacional por alimentos, enquanto os brasileiros amargam a uma carestia que coloca a inflação acima de 10%.

A inegável concentração de renda, de um lado, e o crescimento do número de milionários, de outro, mostra, entre outras coisas, que o problema não é e nunca foi a falta de dinheiro. O problema é a opção política contra os mais pobres do mundo, que se arriscam aos montes, e cada vez mais, a fazer a travessia perigosa da fronteira dos Estados Unidos da América.

Essa opção política contra os mais pobres do mundo é que tem obrigado, há algum tempo, pessoas vindas, especialmente, do norte da África e do Oriente Médio, a se colocarem em perigo, juntamente com suas famílias, para chegar à Europa central. Quem esquece a imagem de um menino morto numa praia da Turquia, em 2015, após a frustrada tentativa de chegar à ilha grega de Kos?

Em todo o mundo, a proteção dos mais pobres por meio de políticas públicas tem diminuído substancialmente, causando desemprego, fome e violência. O exemplo mais acabado dessa afirmação é a chamada reforma trabalhista, em vigor no Brasil desde 2017, que às vésperas de sua aprovação no governo do então presidente Michel Temer, prometia criar 6 milhões de empregos. Não só não criou, como hoje o Brasil amarga mais de 14 milhões de desempregados, sem contar os subempregados, desalentados etc.

Todos os estudos mostram que a redução dos direitos básicos é uma realidade no mundo todo, o que reforça a tese de que se vivemos nos últimos anos uma situação de crescente pobreza é porque alguns poderosos elegeram os despossuídos do mundo como os responsáveis por tudo de ruim. É urgente uma resposta dos que têm os seus direitos usurpados, com ações efetivas de contestação ao que está posto e a exclusão de qualquer proposta de conciliação de classe.

Chico de Paula é Doutor em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre em Políticas Públicas e bacharel em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), advogado e jornalista. Natural de Lago da Pedra (MA), radicado no Rio de Janeiro, onde resido desde 1999.