As manifestações das últimas semanas marcam um retorno da esquerda às ruas?

Por Chico de Paula

As manifestações que tomaram conta das ruas do Brasil no último sábado, dia 19 (continuando os atos do dia 29 de maio), parecem dar um recado contundente ao governo Bolsonaro: o cenário mudou! 

Em que pese o fato de haver ainda uma grande preocupação, justificada, diga-se de passagem, com a transmissibilidade da Covid-19, que agora conhece novas variantes, o foto é que o consenso que toma conta dos movimentos sociais é o de que não dá para esperar as eleições do ano que vem para promover alguma mudança no cenário político nacional. 

Diversos fatores parecem explicar essa mudança de postura. Um deles diz respeito aos cortes na educação que ameaçam paralisar as atividades de muitas universidades federais. Este fato colocou mais uma vez os estudantes na vanguarda da reação que rapidamente ganhou o apoio de diversos segmentos. 

Some-se a isso o crescente desgaste do governo que insiste em negar a ciência como uma saída racional da pandemia, fato que têm resultado no retorno da elevação no número de contaminados e de mortos nos últimos dias. 

A propósito, foi também neste fim de semana que o Brasil alcançou a trágica marca de meio milhão de pessoas mortas em decorrência da doença, o que significa meio milhão de famílias destroçada pela perda dos seu entes queridos, com todas as consequências que decorrem desse fato. 

Neste meio tempo, a CPI da Covid avança sem resultados aparentes, mas deixando bem claro que os apoiadores do governo estão dispostos a tudo, inclusive mentir de forma deslavada, para preservar o presidente, que continua a agir com escárnio em relação à questão. 

Das ruas volta a ecoar a indignação população que incorpora outros movimentos de indignação verificados na América Latina, como é o caso da Colômbia, de onde vem a notícia dos maiores atos de rua deste ano, e do Chile, já em processo de formulação de uma nova Constituição Federal. 

Não atoa se viu por aqui a incorporação de uma importante palavra de ordem reverberada pelo povo colombiano que saiu às ruas em protesto contra o governo de Ivan Duque, de orientação liberal: “Se um povo vai às ruas na pandemia é porque o governo é mais perigoso que o vírus”. 

Está claro que se as pessoas se encorajam em protestar nas ruas, isso não se dá exclusivamente pelo avanço da vacinação, que continua a passos lentos, mas porque o nível de insatisfação alcançou níveis alarmantes, onde o medo da contaminação é sobrepujado pelo desejo de se indignar. 

Mas se de um lado é de se elogiar a disposição popular, de outro é de se lamentar que as centrais sindicais não tenham jogado peso nas manifestações, se incorporando a elas apenas agora quando está claro que há um nível elevado de insatisfação que mobiliza milhares de pessoas mesmo que a pandemia ainda esteja em curso. 

De forma semelhante, Lula continua sua aposta no processo eleitoral, por isso não se manifesta publicamente a favor dos atos e, menos ainda, os incentiva. Para Lula está claro que quanto mais o governo Bolsonaro sangrar, mais chances sua (de Lula) candidatura terá de lograr êxito em 2022. 

Com efeito, a julgar pela consistência das manifestações dos dias 29 de maio e 19 de junho, a volta da esquerda às ruas, monopolizada até então pela base de apoio a Bolsonaro, parece ser um movimento que veio para ficar. Mas os eventuais resultados dessa reação só o tempo dirá.