Colunistas

Os fins e os começos

Por Edson Vidigal

 

Começou uma nova legislatura no Congresso Nacional, Câmara dos Deputados e Senado da República. Uma nova legislatura também nas Assembleias dos Estados e Câmara do Distrito Federal.

São muitos legisladores num País de um Povo que vive farto de tantas leis. As leis que pegam, as leis que não pegam. Fala-se, e muito, ultimamente, também nas leis que pagam e nas que não pagaram.

Afora as leis que não chegaram ao papel, as leis dos costumes, portanto, ignoradas pelos Juízes em seus tribunais, e aí já são outros quinhentos.

Para os eleitos e também para os reeleitos, já são começos ou recomeços. Começos de algum fim. Provisório ou definitivo fim.

Não vem ao caso lembrar as circunstancias dos começos, quase todos muito difíceis, até porque não é o acaso o grande feitor das coisas.

Como tudo na vida, as coisas se fazem com começo, meio e fim. As coisas boas têm fim, as coisas ruins têm fim. A vida, enfim, com tudo de bom e de ruim, tem fim.

Só o amor, porque vem antes da vida e transcende à vida, não acaba, não pode ter fim.

Muita gente, muita gente mesmo, padece de uma dificuldade em compreender que esse espaço de tempo entre uma coisa e outra, um dia acaba.

Quantos não estão agora nestas vésperas se lembrando do quanto foram mimados em incontáveis votos de boas festas, votos sólidos, alguns robustos, muitos engarrafados, todos parecendo se destinar apenas à urna da amizade imorredoura na cabine indevassável de um inoxidável afeto.

Só os tolos, aqueles que logo se embriagam no primeiro gole do poder, podem acreditar que os mimos todos com que são cercados antes das festas, durante as festas e depois das festas, mas só enquanto estiverem em seu naco de poder, são mesmo por causa deles, da inteligência deles, da beleza deles, das qualidades deles.

Estar no poder, há quem acredite, faz até a feiosa parecer bonita, o baixinho pançudo parecer elegante, o chato pedante parecer filosofo, o idiota incapaz capaz de tudo, o truculento verbal parecer diplomata, o velho meliante parecer uma vestal, o poder, enfim, definia Kissinger, é até afrodisíaco.

Estar por um longo tempo no poder esquecendo-se todo o dia de se lembrar que um dia haverá a véspera do dia seguinte é se imaginar capaz de parar o sol a qualquer momento da sua trajetória diária em suas alvoradas e crepúsculos.

Não se preparar com muita antecedência para o desembarque do dia seguinte, preparação essa que, aliás, deve começar desde o primeiro dia de exercício do poder, é se achar o imortal poeta de tudo quanto é marimbondo e, assim, não se achar o mais tolo dentre todos os tolos encontráveis até mesmo nos Evangelhos do Velho Testamento.

Não agir como um tolo é saber distinguir-se entre a pessoa que você sempre foi se esforçando todo dia para ser uma pessoa melhor e a pessoa no poder que você de fato não é porque exercendo o poder você é não é mais que um dos encarregados de mover com a força da autoridade que lhe deram as engrenagens para as coisas acontecerem.

Dependendo de como você exerce a sua autoridade, as coisas podem acontecer em resultados bons, ruins ou maus, sobrando, assim, para todo mundo.

Então os mimos com que cercam a pessoa investida no poder da autoridade, e até mesmo os seus parentes e amigos também são cercados, nada disso tem a ver com as pessoas no que elas são desde o antes e no que elas voltarão a ser completamente a partir da véspera do depois.

Por isso, o bom é quando depois de tanto tempo fora do poder a presença que se registra continua sendo aquela dos velhos amigos, os mesmos de muito antes e também dos poucos que no enquanto surgiram e que souberam manter-se no durante, todos eles para todo o sempre.

O problema é que muitos no poder ainda confundem o ser com o ter. Acabam misturando a essência do que são ou poderão ser como pessoa com as fuligens do poder que imaginam ser coisas suas, pessoais, e não são.

Olha, gente, isso tudo é tão passageiro. Algumas vezes até demora, mas um dia passa. E acaba.

Edson Vidigal, Advogado, foi Presidente do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho da Justiça Federal.

 

 

Bristol, no sudeste da Inglaterra, é uma cidade histórica, atraente e não é de hoje, sobretudo por sua Universidade.

Na área da medicina, por exemplo, há um complexo de hospitais atuantes em pesquisas e serviços em todas as especializações.

Uns poucos brasileiros que concluíram residência no Hospital das Clinicas, em São Paulo, foram para a Universidade de Bristol como bolsistas por dois anos.

Um dos jovens médicos, chamado Euler, comprou um carro.

Ainda se iniciando no hábito de dirigir pelo lado direito, sim, o volante dos ingleses não fica no lado esquerdo como no Brasil e demais do mundo, um dia vendo à frente a faixa de pedestres pisou forte no freio quase alcançando-a.

Como se saísse do nada, um policial altão, forte, farda elegante, o aborda. Fale a verdade, foi logo avisando. O senhor não sabe que tem que guardar alguma distancia da faixa de pedestres?

O nosso brasileiro, médico ortopedista, que se especializava em traumatologia, sabia muito bem do perigo que rondou aquela freada.

Não se intimidou, aliás, nem teve porque se intimidar. O tom do policial foi ameno. Gentil. Educado.

O doutor Euler então explicou que havia chegado do Brasil há pouco tempo com bolsa de estudos da Bristol University. Sabia do risco e da falta em que incorrera. Que passaria a manter maior distância das faixas de pedestres.

O policial gentilmente agradeceu dando-se por satisfeito com as explicações do médico motorista. Não lhe pedira documento algum. Apenas a verdade na palavra. Despediu-se com votos de boas-vindas e de feliz estada na Inglaterra.

Algum tempo depois, outro brasileiro, este chamado Caetano, cantou em versos na canção London, London, a sua surpreendente admiração com a gentileza do policial num domingo em que ele, apenas um exilado compositor brasileiro, seguia vagando, dando umas voltas à pé, sem direção.

Ele, o poeta, está solitário em Londres e Londres é amável assim. Cruza as ruas sem medo, todo mundo deixa o caminho livre. Não conhece ninguém ali para lhe dizer olá. Enquanto seus olhos procuram discos voadores no céu, e as pessoas passam apressadas com tanta paz, um grupo aborda um policial e ele, o policial, parece até muito satisfeito em poder atendê-las.

A Inglaterra então já projetava exemplos de segurança pública com cidadania. Algo que a politicalha patrona da inveja e das gestões medíocres, e sabe-se hoje, pra lá de corruptas, não deixaram que isso acontecesse no Rio de Janeiro. Nem no Maranhão.

Sim, muito, muito depois das ondas tsunamis de medo que foram se apossando e ainda se apossam das mentes pouco sadias no mundo, houve aquela melecada do policial na estação do metrô num subúrbio de Londres, que encagaçado de medo, achando que o jovem barbudo de mochila no ombro fosse um terrorista das arábias, abateu-o covardemente com um tiro de pistola.

E era um brasileiro chamado Jean Charles, cuja história já foi contada até no cinema.

Edson Vidigal, advogado, foi Presidente do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho da Justiça Federal.

 

 

Transparência total. Não só como princípio. Mas como regra absoluta a nortear todas as ações dos agentes do poder público.

O poder de cada um em todos os Poderes – Executivo, Legislativo, Judiciário e Ministério Público – é delegação da sociedade para legitimar as ações de autoridade cumprindo e fazendo cumprir a Constituição e as Leis do País.

A pessoa no exercício de qualquer função do poder público perde o respeito da sociedade quando perde a moral. Perde também, por conseguinte, a legitimidade indissociável à validade dos seus atos.

Por isso, há sempre em prontidão os que convocam a injúria, a difamação, como armas nunca certeiras, sem os resultados finais pretendidos, quando a verdade desponta, a tempo, abatendo os mísseis da crueldade.

Daí que não basta, em especial, no serviço público, fazer as coisas certas, mas fazê-las sempre com a certeza de que todos os olhos do mundo estão a enxergar tudo o que se passa, ainda que o fazer imponha absoluta concentração e total solidão.

Nas quase duas décadas em que estive Juiz com imenso poder de autoridade na República ate me ofendia com as insinuações e dossiês anônimos que eu lia ou me chegavam.

Conhecendo as pessoas como imaginava que as conhecia, tendo mais o que fazer no meu trabalho, não vendo indícios suficientes nem provas, lançava tudo na lixeira do tempo. Para não atulhar com lixo as gavetas da memória.

Hoje, depois que voltei ao outro lado dos cancelos, fronteiras sempre intransponíveis, o olhar de advogado no desfilar das coisas me inquieta como sementes de dúvidas.

Dúvidas hoje ainda me são poucas. Surpreendentes, mas poucas. Como no poema de Pessoa, não tenho, nunca tive, irmandade nenhuma com essas coisas.

Luz, mais luz! Peticionou Ghoethe. Mais vale acender uma vela que amaldiçoar a escuridão! Proclamou Confúcio. Transparência total, luz absoluta, também sobre os labirintos, e ainda são muitos, do Judiciário no Brasil.

E para ler e meditar com calma a matéria do Crusoé desta semana. Veja aqui:

https://crusoe.com.br/edicoes/34/a-chance-da-lava-toga

ntre a eleição e a posse há um governante, que mesmo em estado de reeleição, executa acordes finais.

A fadiga do primeiro mandato não parece inspirar acenos às esperanças que vistas hoje, de um certo ponto de vista, renegam o verde que o tempo por estas bandas sangrou.

As esperanças de muito antes de anteontem que pousaram nos corações de outrora agora se ensaiam em desertos de verdes como que em busca de uma nova cor, o branco das pombas, talvez, certamente um símbolo de paz.

A esperança é incansável, não desiste, é imortal. É a última que morre, até porque, dizem, quando o nojo chega ao mais insuportável ela é a primeira a dar o fora.

Assim como há cordeiros que não são cordeiros porque por dentro são lobos vorazes, advertem os evangelhos, há também as esperanças não são esperanças porque são as que no voo despencam o verde da ilusão e então picam com violência porque em verdade são marimbondos vorazes.

Entre o resultado da eleição e a data da posse há dois governantes. Há o que vai sair daqui a pouco – ou porque a maioria, uma vez esclarecida, preferiu dar logo um basta nos avanços da sua jornada ou porque não se candidatando a nada preferiu a quietude da hora de ir embora sozinho.

Há o que, eleito pela primeira vez, é rodeado de bajuladores, de oportunistas, de alpinistas e até de esperanças das verdes, também conhecidas como esperanças populares. Onde chegam. Ou por onde passam.

Esse tempo, que é só de espera da data da posse, inebria encantamento como um éter fortíssimo de um enorme frasco quebrado.

É preciso equilíbrio, quero dizer, muito juízo, para não achar que tudo que se refere ao poder é por demais passageiro.

O poder, seja o político, o econômico, ou aquele outro difuso conhecido como o da glória, podem viciar.

Felizmente, como tudo nesta vida feita de antes, durante e depois, o poder, qualquer que seja, tem prazo de validade e um dia acaba. Só os idiotas se iludem e confundem achando que o estado transitório do poder, qualquer que seja, é coisa de posse pessoal.

O poder político é institucional. Resulta da legitimação legal, mas perde densidade até não valer mais nada ao perder a autoridade moral. Os cargos e funções não honram, mas os que os ocupam e os exercem é que tem o dever moral de honrá-los.

O eleito pela primeira vez, que está só na espera da hora da posse, já governa. Governa expectativas. Seu governo prévio tem o acorde de uma canção. Das que não enxotam esperanças. Talvez como na “Canção da Expectativa” do poeta José Chagas.

Edson Vidigal, Advogado, foi Presidente do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho da Justiça Federal.

 

 

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